Ensaio em desenvolvimento desde 2013










“A prática de caminhar insistentemente por São Paulo fez com que me deparasse com um personagem urbano que, assim como eu, parecia caminhar sem destino certo. Comecei a observar esse personagem que se destacava das outras pessoas por fazer da rua seu espaço de trabalho, e por ser guiado por uma busca: ao invés de imagens, ele buscava objetos. Me perguntei se seu caminhar seria tão tortuoso quanto o meu ou se haveria alguma lógica determinada em seus percursos. Passei a observa-los, fotografa-los, segui-los. Percebi que alguns deles eram extremamente rápidos, a tal ponto que não conseguia acompanha-los - pela forma como se enfiavam entre os carros - outros mais lentos e observadores, paravam para conversar com as pessoas.”


Catador (2013 – ) estabelece um paralelo metafórico entre o ato de caminhar dos catadores de material reciclável de São Paulo e dos fotógrafos/artistas caminhantes que percorrem a cidade. Ambos atravessam as ruas à procura de coisas: objetos, imagens, sons, colecionando-os em suas carroças, bolsas, cadernos, memórias e cartões de memória à medida que cruzam o território. Seus atos se constituem a partir de três ações atávicas fundamentais: o caminhar, o catar e o marcar.


Catador não parte de uma idéia, mas de uma experiência. Essa experiência é o ato de caminhar e fotografar na cidade de São Paulo. Caminhar e catar - não alimentos e objetos (necessidades físicas e fisiológicas), mas imagens e sons (necessidades afetivas e psicológicas) – através de um território que não te acolhe, envolve e fascina, mas te repele e te cansa, te testa, te exige disposição, coragem e insistência. A insistência em desvendar novos territórios - como nossos ancestrais - caminhar por bairros e regiões desconhecidas, ser estrangeira, colocar meu corpo em embate físico e psicológico, imergir nesse espaço rude e áspero, atravessar e me deixar ser atravessada por ele.


Dessa experiência nasce um conjunto de fragmentos que apresentam uma paisagem real, vivida, mas das quais nasce uma nova paisagem, imaginada enquanto conjunto, construída através do ato de editar. E por essa paisagem ficcional, mas real, circulam personagens que, ao serem pinçados da realidade, ganham luz, tornam-se protagonistas.

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