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As cidades são um dos temas mais fascinantes da fotografia desde o momento decisivo de sua invenção há quase 2 séculos pelo francês Joseph Nicéphore Nièpce. E, nos dias de hoje, passado tanto tempo, o interesse que ela desperta não se esgota, pelo contrário, torna-se cada vez maior. Não é para menos, principalmente para quem vive em uma megalópole como São Paulo.

E é nesta direção que Inês Bonduki dirige seu olhar sensível e perscrutador ao abordar um dos aspectos mais importantes de uma cidade indomável como São Paulo. A mobilidade urbana, seja a pé, de bicicleta, em transporte individual ou coletivo é um tema a ser discutido em seus mais diversos aspectos. E Inês, ao se distanciar da abordagem óbvia e literal das longas viagens de metrô, nos revela, ao articular imagens de dança e de passageiros do próprio metrô, um inédito e surpreendente retrato do comportamento humano.

Em um momento em que a fotografia se aproxima das novas tendências da arte conceitual e ameaça se afastar da observação da vida como ela é’, Inês se debruça em seu Linha Vermelhasobre um tema concreto e dos mais relevantes de uma metrópole com a força reveladora que somente a fotografia pode proporcionar.


Cristiano Mascaro











"Entre 2013 e 2015, estive dedicada a ir e voltar incontáveis vezes na Linha Vermelha do Metrô de São Paulo em seus horários de pico, para vivenciar e tentar fotografar a intensidade corporal e emocional dessa experiência cotidiana de 3 milhões de paulistanos.

Ao mesmo tempo, registrei as também intensas jams de dança em São Paulo (Contato Improvisação), em que a interação corporal se dá de forma expansiva e a partir da escuta sensível do outro.
Ao associar essas duas realidades na edição do livro 'Linha Vermelha', percebi que elas se aproximavam e se misturavam, tornando-se quase a mesma. Realidades opostas e complementares que viabilizaram a construção de um discurso visual que não se dá em uma ou outra, mas entre as duas."





Linha Vermelha articula dois ensaios fotográficos de realidades à princípio distantes: o interior de vagões do metrô de São Paulo (2013-15) e jams sessions de dança (Contato Improvisação, SP, 2014), de forma a ressaltar um aspecto que os relaciona: a proximidade dos corpos e uma intensa experiência de toque.


O título refere-se à mais longa linha de metrô de São Paulo, que transporta 3 milhões de pessoas todos os dias da periferia para as regiões mais centrais da cidade. Essas pessoas perdem de 2 a 3 horas diárias no deslocamento casa-trabalho-casa. A maioria das imagens foi produzida com um celular nas horas de lotação mais críticas dessa linha. Além de explicitar questões político-sociais, em Linha Vermelha a intenção é de observar a natureza corporal e sensível da experiência urbana. Nesse sentido, as imagens de dança Contato Improvisação articulam-se com as imagens do metrô explicitando naturezas opostas de corporeidade.


O Contato Improvisação, uma dança criada na década de 70 nos Estados Unidos e difundida pelo Brasil a partir da década de 90, opõe-se à idéia de coreografia e fundamenta-se na construção de um movimento de improviso entre duas ou mais pessoas, pautado na consciência corporal e na escuta do outro. O diálogo da dança se estabelece através de técnicas de troca de peso mas também princípios de jogo.

Em ambas as situações vemos imagens de corpos que se tocam: no vagão do metrô, o toque involuntário dos corpos revela tensão no espaço entre eles, já que o desejo é de afastamento; entre os dançarinos de Contato Improvisação, um espaço macio, com intenção de aproximação, diálogo e aprendizado sensível.











Linha Vermelha, 2013-5


Fotos: Metrô de São Paulo [2013-5]

jams de dança em São Paulo (contato improvisação)

 [jan 2014].


Fotolivro

17X17cm | 46 páginas


fotos | edição | projeto gráfico: Inês Bonduki

ilustração da capa: Tatiana Tatit




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